Amar se aprende amando, ler se aprende lendo

Christine Castilho Fontelles *


Assim ensina Drummond : “O ser busca o outro ser, e ao conhece-lo acha a razão de ser”. Todo ser vem ao mundo e nele aprende a existir amparado pelo amor e cuidado de outro ser, um mediador entre nós e o desconhecido mundo. E seguimos vida adentro aprendendo o cultivo e o encontro com novos amores e desamores. Não há truques, nem atalhos. É no convívio e contato cotidiano com outros seres humanos, entre alegrias e frustrações, mas sempre empenhados em aprender, que amadurecemos nossos sentimentos e nos preparamos como mediadores dos novos seres que virão. É nosso destino enquanto humanidade – embora não estejamos nos saindo tão bem assim, como retrata o perspicaz sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seu livro “Amor liquido”.

Não há truques, nem atalhos. Mesmo em tempos digitais. Tal qual aprendemos a ser humano e amoroso no convívio e no contato com outros seres humanos, aprendemos a ler mediante uma experiência repleta de altos e baixos, com dificuldades e superações, ou seja, aprendemos a ler expostos às experiências leitoras, no convívio e no contato cotidiano com livros, leitores e leituras. Aprendemos a refinar o gosto, apurar os sentidos, a desbravar textos complexos e, de certa forma, a descobrir em nós um leitor ávido em empreender leituras desafiadoras.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revela, desde sua primeira edição, a enorme importância de mães e professores na formação leitora de crianças e jovens. E que estamos fazendo com as informações trazidas pelas pesquisas? Alguma campanha ou política pública em nível nacional para apoiar adultos educadores, famílias e escolas, no cumprimento desta tarefa tão fundamental? Há ações concretas destinadas à informação às famílias e relacionada à formação dos professores para que aprendam como formar leitor? Nós nos servimos pro-ativamente do que indicam as pesquisas para além de lamentar em manchetes os déficits que revelam?

Se a educação é o exercício da esperança para que indivíduos se tornem seres humanos criativos, inovadores, generosos e cidadãos, com tudo o que a palavra encerra de responsabilidade e direitos, é a leitura a atividade e a matéria transversal. Mas de que leitura falamos? Da leitura formativa, tal qual a descreve o professor Luiz Percival Leme Britto, da leitura “para além do cotidiano imediato, com níveis de complexidade variada, onde há outra esfera de produção intelectual relacionada com a escrita, relativa à interação com os conhecimentos e valores formais, às ciências, às artes, à formação e ao estudo. A ela, associam-se os textos cujos conteúdos e forma de organização transcendem o imediatismo e o pragmatismo, tendendo a ser autorreferenciados e a exigirem maior nível de metacognição”.

Numa entrevista concedida em 2011 Eduardo Galeano, pensador e autor de obras de valor fundamental para a construção de humanidades, disse que a “vida não é feita de átomos, é feita de histórias, porque são as histórias que a gente escuta, recria, multiplica, são as histórias que permitem transformar o passado em presente e que permitem transformar o distante em próximo, possível e visível”. Para usufruir deste valioso patrimônio humano é preciso estar plenamente inserido na cultura escrita.

E se não temos como prometer se o resultado de mais e melhores leituras formará Gandhi ou Hitler, parece certo, olhando a história em retrospectiva, que com mais exercícios de alteridade, e a leitura, em especial de ficção, é um recurso estratégico, tendemos mais à mais humanidade. Não se trata apenas de formar médicos, mecânicos, professores, atores etc, mas como se formam, quem se tornam e quais compromissos assumem para evitar retrocessos e promover avanços relacionados às conquistas socioambientais. Em semear oportunidades para deixarmos “filhos melhores para este planeta”.

“Nenhuma tristeza pode ser explicada. É ferida para além do corpo, é dor para lá do sentimento”, escreve Mia Couto em um dos contos reunidos no livro “Cada homem é uma raça”. Seus escritos são a prova viva de que a literatura é um portal para dimensões do viver humano que transcende tempo e lugar e permite uma experiência de alteridade extremamente valiosa pata costurar a compreensão de que para além de pertencer a esta ou aquela raça, este ou aquele lugar, somos da raça humana, temos uma humanidade comum, de cujas dores não podemos nos furtar.

Outro dia me perguntaram o que seria do futuro da escrita. Não sei! Não sou linguista, nem futuróloga. Sou uma socióloga que teve o privilégio de receber do pai a coleção de Monteiro Lobato e não parar de ler nunca mais. Penso que está na hora de manter o olho no por vir com as mãos na massa do a fazer: assegurar um direito previsto em Lei, a plena inclusão na cultura escrita, para que do resto possamos correr atrás.

* Cientista social pela PUC de São Paulo, possui MBA em Marketing pela FIA/FEA/USP, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, conselheira da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e do Movimento por um Brasil Literário.

Voltar para o site