Brincar de Ler

Bola, boneca, livro, tablet, peteca: o berço de um futuro leitor Christine Baena Castilho

Christine Castilho Fontelles *


Quando um bebê começa a ser gerado no útero da mãe, e coloniza o coração das famílias à sua volta, imediatamente nascem expectativas e inquietações. Uma série de providências e cuidados especiais iniciam uma rotina especial para acolher esta nova vida. A mãe faz exercícios, yoga, drenagem linfática, começa a cantar e ler para o filho que vai chegar, arrematando cuidadosamente uma cumplicidade para toda a vida. No enxoval do bebê constam itens fundamentais como fraldas, lençóis, toalhas, mamadeiras, termômetro, brinquedos, livros.

No útero da mãe, o bebê já participa do ambiente que o hospeda. Ambos estão profundamente ligados. Ele ouve a sua voz e reage aos estímulos proporcionados. Seus corações batem simultaneamente. Quando nasce, é envolto em acalantos e ouve belas histórias. Agora, apesar de intimamente ligado à mãe, também reconhece os carinhos da família. Nos banhos matinais, a água morna e a suavidade do toque das mãos de seus cuidadores dão o tom aconchegante ao ambiente. E para que tudo fique divertido – brincadeira é coisa séria para criança, é seu meio de reconhecer o mundo que o cerca –, bóiam em sua banheira bichinho de borracha e livrinho de plástico, coloridos. Aos poucos, o bebê manuseia estes objetos, reproduzindo o gesto cotidiano de seus cuidadores.

Os meses avançam e a interação do bebê com o mundo é cada vez mais intensa. Rola pelo chão, instigado por objetos que chamam a sua atenção, exercitando os seus “acessórios” – tronco, braços, pernas, pés, mãos. Tudo deve ser suave ao toque do bebê, os brinquedos e livrinhos são de panos coloridos. Curioso, observa atentamente os movimentos realizados por seus pais e cuidadores. Com a bola, pra lá e pra cá; o carrinho, que vai e vem; a boneca, que se aproxima e se afasta; as páginas do livro que abrem e fecham, em perfeita conexão com a voz dos adultos que lhe ofertam esta brincadeira; as telas do tablet e do celular que vem e vão com o mesmíssimo movimento.

Os objetos passam da mão à boca – fase oral, os bebês literalmente experimentam o mundo que os cerca! Começam a engatinhar ao som de canções que tocam e são cantadas – tentam imitar os sons emitidos pelos seus cuidadores. Passam sobre tudo que está no caminho: almofadas, brinquedos e livros cartonados, com muita imagem e muita cor. Levam-nos à boca e o seguem com os olhos fascinados na medida em que um adulto vira suas páginas revelando novas formas, cores, novos sons. Assim vai aprendendo que a vaca faz “muuuu”, o galo faz “cocoricó”, o cachorro faz “au au”, as buzinas fazem “bi bi”. O mundo é divertido, colorido, aconchegante e tem sempre alguém pronto pra lhe doar tempo, cuidado, amor e muitos, muitos sons. Devagar ele aprende que esses sons são palavras e que as palavras são “imagens” para se ver, ouvir, falar e escrever.

As preferências vão surgindo ao longo das experimentações: sabores, cores, músicas, brinquedos, histórias, lugares, pessoas – os vínculos mais estreitos, claro, são reservados à mãe, ao pai, aos irmãos, à família e aos cuidadores. Com eles aprenderá que o mundo é belo e as pessoas são boas. Olha e escuta atentamente, repete sons e atitudes. Em seu baú de brinquedos tem bola, boneca, livro, peteca, monta-monta, bichinhos, carrinho ....ah! os livros literários com sons ao toque do dedinho, texturas diferentes e pop ups são os mais curtidos – como é igualmente curtida a presença do cuidador, sua voz, seu toque, seu carinho. Todo objeto, brinquedo e livro, são meios de transporte de cuidados e de afeto.

Pesquisas revelam que o gosto da leitura tem influência direta das professoras (45%), das mães (43%) e dos pais (17%). Portanto, proporcionar ao bebê uma rotina de contatos com a leitura em voz alta e com os livros, impressos ou digitais, além de garantir-lhe um melhor desempenho escolar, terá papel importantíssimo na elaboração de suas emoções e na construção da sua base afetiva.

A leitura, em especial a literária, é uma atividade social que nasce a partir da mediação de um adulto educador, pais e professores, com a criança. Não nascemos leitores; nós nos tornamos leitores porque esta é uma prática social: nos tornamos leitores por convívio e por contato com livros, leitores e leituras. Como diz a fonoaudióloga e mestre em psicolingüística pela USP Lucila Pastorelo, “falamos com os bebês para que aprendam a falar; dançamos com os bebês para que aprendam a dançar; sorrimos e dizemos não para que consigam fazê-lo. É preciso ler para crianças pequenas, bem pequenas, sempre. Para que elas possam ler, ter acesso ao mundo e tornarem-se cada vez mais Humanas”.

As crianças se tornam leitoras literalmente no colo dos pais, mesmo que estes não saibam ler ou tenham dificuldades de leitura. Mais tarde, na escola, dão sequência a este aprendizado, acompanhadas de seus professores, e assim, aos poucos, acordam humanidades, como anuncia o querido poeta Bartolomeu Campos de Queirós: “De tudo nos fica a certeza de que é necessário - mais que nunca - educar os nossos sentidos. Só depois de bem apurados seremos capazes de nomear com mais significantes o mundo, que nos recebe para a vida e que estará, sempre, antes e depois de nós. E não há método mais eficaz do que a palavra literária para acordar e atribuir sentidos às coisas. É preciso aprender a contemplar as sementes e deixar a palavra dizer a árvore que ela protege em seu dentro”.

E até parece que eles já nascem sabendo disso, como revelou o Petrus, garoto de 13 anos de Laranjal Paulista (SP): “Podemos não aprender a ler e escrever na barriga da mãe, mas lá é que as nossas palavras são feitas, e quando nascemos elas estão somente esperando em nossa boca para sair e se soltarem no mundo”.

* Cientista social pela PUC de São Paulo, possui MBA em Marketing pela FIA/FEA/USP, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, conselheira da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e do Movimento por um Brasil Literário.

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