CULTURA DIGITAL E BIBLIOTECA

Afinal, pra que serve uma biblioteca em tempos digitais?

Christine Castilho Fontelles *

Algumas práticas humanas se modificaram e outras sobreviveram às diferentes mudanças ao longo da história. Talvez guiados pelo mesmo padrão que garantiu a evolução das espécies, segundo Darwin, nossa decisão está sempre pautada em assegurar perpetuidade. A melhor carga genética segue adiante. A educação, baseada nas trocas entre humanos, é uma delas. Seguimos aprendendo pelas experiências ofertadas e viabilizadas por educadores. É o que traz a possibilidade de criarmos juntos novos fatos para reduzir o enorme fosso que ainda hoje separa quem sabe de quem não sabe.

O cérebro super dotado e o polegar opositor são dois valiosos “equipamentos” que nos distinguem dos outros animais, inclusive de nossos “parentes” primatas, sendo o primeiro uma tremenda vantagem competitiva por meio da qual geramos conhecimento, inovação, ciência! E por meio desta desenvolvemos recursos de todas as ordens que, em tese, deveriam contribuir para que existíssemos de forma mais sustentável no planeta – um dia chegamos lá, e é o que esperamos quando exercitamos o grande exercício da esperança que é a educação.

Pois bem, esta introdução é apenas para localizar quem somos, enquanto espécie, e o que podemos ser e fazer com os recursos disponíveis, em permanente inovação, atualização, graças ao nosso cérebro super dotado, entre outras coisas. E assim chegamos ao ponto desta prosa: a cultura digital. Uma tecnologia. Uma nova tecnologia para suportar o texto escrito. Já passamos pelas paredes das cavernas, papiro, argila...papel e, mais recentemente, a tela digital. Mais do que isso, o acesso ilimitado – até onde se tem notícia – a milhares de dados via internet.

Ou seja, somos bem aventurados – embora nem todos e nem ao mesmo tempo uma vez que a internet banda larga no Brasil não é um item disponível em escala nacional – com tecnologias que podemos escolher, no caso atual papel ou digital/internet, para acessar informação e até participar de educação à distância, algo que é realizado sempre com apoio de um tutor e nos casos de graduação e especialização um professor que media as aulas, incluindo discussões com o grupo – material auto-instrucional são usados apenas no caso de oficinas de pequeníssima carga horária. Ou seja, interfaces humanas.

Indo ao ponto, que é inclusão na cultura escrita, educar para a leitura, biblioteca. Afinal, para que serve uma biblioteca em tempos digitais? Eu diria, para sintetizar, que é para promover encontros entre leitores e não leitores, entre leitores e leituras, reproduzindo aquela experiência que lançamos mão desde sempre para sermos educados. Em Madri tem a Casa del Lector (Casa do Leitor), um nome que gosto muito, porque deixa claro quem importa. Lá se emprestam tablets com acesso gratuito a várias publicações. Entre direto no seguinte endereço e veja qual imagem se encontra aqui. Estão interessados em formar os pequenos leitores digitais e oferecem atividades/encontros para crianças a partir de 9 meses.

Aprender a ler, diferentemente do que pensamos, é uma tarefa desafiadora e pra toda uma vida. Que deve começar em casa, no útero, como tudo, ofertado pela família, e se estender às escolas, às bibliotecas, colocando à disposição todos os recursos tecnológicos dos quais dispomos – não há razão para abrir mão de nenhum. Pesquisas apontam com clareza que são os professores, seguidos de perto pela mãe e depois pelo pai, os grandes responsáveis pela formação leitora de crianças e jovens. Como afirma o Prof. Luiz Percival Leme Britto da Federal do Oeste do Pará e grande pesquisador da área, “não é que as pessoas não leem porque não querem, elas não leem porque não podem”, comentando o cenário de baixos índices de leitura e de competência leitora no Brasil, reforçando que é preciso ler e educar para ler “para além do cotidiano imediato, com níveis de complexidade variada, o que envolve a esfera de produção intelectual relacionada com a escrita, relativa à interação com os conhecimentos e valores formais, às ciências, às artes, à formação e ao estudo”.

A biblioteca é este lugar educativo, de acesso gratuito ao conhecimento estruturado pela escrita, pelo livro, impresso ou digital, onde encontramos um educador comprometido com esta tarefa, no caso da biblioteca em escola, totalmente conectado com o projeto pedagógico da escola, mas também oferecendo leituras que vão além das tarefas escolares. Um lugar de encontro com leitores, de ideias, como vi semana passada numa biblioteca em uma escola na zona rural do Maranhão, onde conheci Iasmin, sua irmã Fernanda e o amigo Bruno, na faixa dos 13/14 anos, completamente fascinados, mobilizados e convictos dos benefícios gerados por uma boa biblioteca. Sem que perguntasse, me disseram espontaneamente que gostariam de ser escritor, editor, bibliotecário, viabilizando um ciclo que é tão vital: se dispor a compartilhar uma ideia de mundo pela escrita, se dispor a viabilizar o amplo acesso a esta ideia e se dispor a promover o encontro entre uma ideia, um autor, um leitor e, quem sabe, um novo mundo, um mundo melhor, um mundo mais sustentável, com qualidade de vida para todas as vidas.


* Cientista social pela PUC de São Paulo, possui MBA em Marketing pela FIA/FEA/USP, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, conselheira da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e do Movimento por um Brasil Literário.

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