Naufrágios Civilizatórios

Christine Castilho Fontelles *


Einstein dizia “não sei com que armas a III Guerra Mundial será lutada. Mas a IV Guerra Mundial será lutada com paus e pedras”. Certamente ele pensava que numa terceira versão de guerra mundial se usariam armas nucleares de extinção em massa. Tecnologia a serviço da morte. Mas não, ele errou. Não há a necessidade dessa tecnologia. As armas são exatamente aspectos do nosso comportamento que apesar dos esforços ainda não foram descartados em nossa evolução, e restam na “qualidade” de muito humano em nós: ganância, indiferença, preconceito, intolerância, desamor.

A terceira grande guerra ocorre a todo momento, em cada canto, casa, relação humana, encruzilhada. Uma ideia diferente, um jeito diferente e discordante da média é suficiente para fazer brotar o ódio e a violência. E soa natural censurar e abolir a presença de palavras que anunciam a necessidade de debate e tratamento de questões que afetam direitos fundamentais, como ocorreu recentemente com os planos municipais e estaduais de educação, onde o termo “gênero” foi banido para silenciar avanços civilizatórios. A tecnologia permite transmissão online e em tempo real das várias formas de crueldade e tirania e escravidão que persistem no mundo. Mas não nos educa e nem nos prepara para evita-las, bani-las, varre-las do mapa, em terras e oceanos. Isto porque tecnologia é meio e não fim e humanidade se constrói no um a um; no encontro entre pessoas que tecem melhores hojes e amanhãs. E o que nos humaniza? Certamente o convívio e o contato cotidiano com outros seres humanos e as ideias de humanidade que cultivamos desde tempos imemoriais. Está na arte, está nas histórias de ficção que revelam a determinação e a contradição inerentes no pensar e no fazer humano. O contato cotidiano com a literatura, desde muito muito cedo em nossas vidas, contribui de forma expressiva para nos manter determinados na tarefa cotidiana de tornar realidade esta ideia de humanidade que cultuamos. Não é panaceia, mas é um insumo precioso.

A literatura nos permite íntima conexão com a aventura e desventura humana na Terra e nos alimenta com esperança para persistir. É por onde reconhecemos desde muito cedo nosso direito à fantasia, à fruição, ao sonho, a ousar e buscar forças para fazer do hoje um lugar melhor para se viver. Como dizem os especialistas, nos contos fantásticos estão lá os dragões para nos anunciar que, sim, podemos vencê-los e persistir em nosso processo de humanização. Na literatura há abertura para mostrar a altura da fúria de uma infância, que se desfaz na certeza do amor da mãe, pulsante no “Onde vivem os monstros” de Sendak. Estão lá no “Germinal” de Zola a cultura da ganância que rouba a vida de gerações, onde a cada virar de página ficamos impregnados do carvão das minas; a cultura machista que há séculos submete mulheres está escrito com detalhes desconcertantes em “Uma vida” por Guy de Mopassant; a crueldade que rouba nossa humanidade está lá em “É isso um homem?” do Primo Levy, onde cada trecho é um soco e um susto; e também anuncia delicadeza e cuidado com a infância já no prefácio do recém lançado “A pequena Alice no país das maravilhas” por Lewis Carroll.

Assim disse o genial ser humano escritor Mia Couto em seu discurso recentemente proferido ao receber o título de Doutor Honóris Causa pela Universidade Politécnica de Maputo: "Um dos caminhos que nos pode ajudar a resgatar essa moral perdida pode ser o da literatura. Refiro-me à literatura como a arte de contar e escutar histórias. Falo por mim: as grandes lições de ética que aprendi vieram vestidas de histórias, de lendas, de fábulas. Não estou aqui a inventar coisa nenhuma. Este é o mecanismo mais eficiente e mais antigo de reprodução da moralidade. Em todos os continentes, em todas as gerações, os mais velhos inventaram narrativas para encantar os mais novos. E por via desse encantamento passavam não apenas sabedoria, mas uma ideia de decoro, de decência, de respeito e de generosidade."

Por mais literatura, por mais casas e escolas ofertando literatura todos os dias, por mais bibliotecas em todos os cantos abertas a todos e promovendo encontros por meio da literatura, por mais Mias Couto!, por dias melhores, por cuidados maiores, aqui e agora.

Publicado no UOL

* Cientista social pela PUC de São Paulo, possui MBA em Marketing pela FIA/FEA/USP, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, conselheira da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e do Movimento por um Brasil Literário.

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